quinta-feira, 14 de abril de 2011

Tragédia de Realengo: Uma tragédia anunciada

Escrito por – Paulo Célio – Jornalista Rio de Janeiro

Muitos, como de costume, estarão clamando pela tal da “justiça dos céus”, ao invés de cobrar da “Justiça dos homens” – essa, sim, responsável por julgar e punir os delitos praticados nesse mundo que vivemos e não do além, de onde se supõe vir a tal da outra “justiça”.
É da Justiça dos homens – e não da dos céus, por exemplo – a responsabilidade de determinar a imediata retirada das “lan houses” de jogos de tiros em primeira pessoa (FPS, da sigla em inglês) e tantos outros, proibidos para menores de 18 anos, cujo estímulo à violência gratuita e a capacidade de formar jovens delinquentes é incontestável. Destaque para os jogos “Couter-Strike” (CS) e “Gta San Andreas”, entre outros.
Assim fez o juiz Carlos Alberto Simões de Tomaz, da 17ª Vara Federal da Seção Judiciária do Estado de Minas Gerais, que determinou, em 22/01/2008, em acato à Ação Civil movida pelo Ministério Público Federal, que a União fosse condenada a suspender e proibir a distribuição e comercialização desses jogos em todo o território nacional (em particular os jogos conhecidos como CS ("Counter-Strike") e "Everquest". O juiz alega que estes jogos "incitam à violência, propugnam pela idéia de que o mais fraco deve sucumbir ao mais forte, disseminam o prazer pela dor, pelo ódio e pela morte". Baseou-se o magistrado nos artigos 6, I, 8, 10 e 39, IV, todos do Código de Proteção e Defesa do Consumidor, referindo-se aos jogos em questão como “nocivos à saúde dos consumidores”.
Essa Decisão, porém, foi cassada em 12/06/2009, por unanimidade da Sexta Turma do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, nos autos da Medida Cautelar n° 2008.01.00.010959-9, em decisão unânime que suspendeu os efeitos da sentença proferida pelo Juízo, tendo como outras a alegação que o jogo é “(...) classificado pelo Ministério da Justiça como recomendado para maiores de 18 anos, uma vez que a tutela judicial não se destina a proteger exclusivamente direitos de crianças e adolescentes; que não há demonstração de prejuízo à saúde física ou psíquica de pessoas usuárias de qualquer faixa etária (...).”, segundo o relatório da desembargadora Federal Maria Isabel Galloti Rodrigues.
É da Justiça dos homens também – e não da dos céus, por exemplo – o entendimento de que é maliciosa ou não a massiva utilização pelos meios de comunicação de termos e gírias americanos como “bullings” e quetais só faz disseminar e incentivar através do modismo, a violência gratuita contra os mais fracos – tão comum no seu país de origem. Agredir minorias em escolas, graças à mídia, agora tem nome, agora é moda, agora é “bulling”
Rebatendo a tese de que os aparentemente mais fracos, os mais feios, os mais gordos, os mais estudiosos... “sempre” foram molestados na escola, desde que o mundo é mundo, posso testemunhar: De tudo o que presenciei nas escolas onde estudei na infância e adolescência, o mais grave eram os apelidos infames – daí pra violência física há uma grande e saudável distância.
Rebatendo também a tese de que brincávamos de “cow-boys” quando pequenos e que não nos transformamos todos em pistoleiros, gostaria de responder: Os tais “caw-boys”, mesmo notórios assassinos de índios inocentes, passavam a imagem de “íntegros”, de protetores dos mais fracos, das moças, das crianças e das velinhas.
Diferente dos “heróis” desses tais jogos, que se limitam a matar sem piedade os mais fracos. Em jogos como o “GTA San Andreas” o herói é um fugitivo da polícia que possibilita ganhar mais pontos no jogo furtando veículos, pixando prédios e matando indefesos animais, mulheres crianças e idosos.
Toda a vez que falo sobre esses jogos ou presencio impune e escancaradamente a sua utilização por brasileirinhos de 10, 11, 12, 13 anos, bem do meu lado em qualquer “lan house”, Brasil afora, lembro e agora entendo a frase “Para mim não era uma criança. Era um boneco de judas!”, proferida pelos adolescentes que, em 7 de fevereiro de 2007, ao fugir com um carro roubado, arrastaram por cerca de 7 quilômetros, até a morte, o menino João Hélio. Não conseguia entender na época, como que alguém poderia banalizar tanto assim a vida humana...
Passados 4 anos e, de novo, um jovem, no Rio de Janeiro, mata cerca de 12 estudantes e fere outros gravemente por motivos que jamais iremos saber. Imobilizado por um tiro de um policial, o jovem “suicidou-se” (sic.) a seguir.
Buscando entender de suas razões, fico sabendo pelo noticiário que o jovem assassino era membro, desde criança, de uma dessas seitas pentecostais de orientação americana: “Testemunhas de Jeová” e que, além de trabalhar, orar e “pregar a palavra” ele não fazia outra coisa senão plantar-se todos os dias à frente do computador para jogar esses tais joguinhos de tiros em primeira pessoa (FPS, da sigla em inglês). Esses mesmos cujo o objetivo é sempre eliminar de maneira brutal os mais fracos (leia-se: mulheres, crianças e idosos – no caso do “GTA”). Seus jogos preferidos: “CS” e “GTA”. Daí, creio, para interessar-se um pouco mais pelo manuseio de revólveres reais, foi só um passo...
A mídia rapidamente buscou as prováveis razões para tal barbaridade. As precipitadas versões de que o assassino era aidético, que era muçulmano, que era gay, logo foram jogadas por terra à cada nova informação que surgia. Fato incontestável, parece, é que o jovem era fiel da seita “Testemunha de Jeová” e que gostava – demais da conta – desses joguinhos de matar mulheres, crianças, animais e idosos... Conforme divulgou o jornal O Globo.
Em comum, nas duas tragédias que abalaram o país (o caso João Hélio e esse de agora), o fato do secretário de Segurança estadual, José Mariano Beltrame ter “chorado”. E de estarem impunimente livres o uso por crianças de jogos como esse tal de “GTA”, nas “lan houses” do Rio de Janeiro e do Brasil a fora – apesar de só serem permitidos para maiores de 18 anos.
Como a tal “justiça dos céus”, que precisa ser invocada, a Justiça dos homens precisa, além de ser invocada, também provocada, segundo os doutos da Lei.
Que dessa discussão reste provada a maléfica influência desses jogos no estímulo a delinquência e a covardia para com os mais fracos junto aos sem número de brasileirinhos de 10, 11, 12, 13 anos, que diariamente lotam as “lan houses” em busca de lazer.
De outra forma, temo, somente quando esses jogos americanos, preconizarem o assassinato de promotores, considerados por eles omissos; de magistrados, considerados por eles injustos e de demais autoridades, municipais, estaduais ou federais, consideradas por eles omissas, é que veremos o seu fim.
Enquanto isso, peça a seus filhos para lhe mostrar como funciona esses jogos e entenda tudo isso que escrevi. Inscreva-os em atividades alternativas durante o dia, mantendo-os distantes desses jogos. Em casos mais graves, acione o Conselho Tutelar de sua cidade e, em caso de omissão, procure ajuda no Ministério Público.




Leia matéria complementar - Sobre Realengo e o Brasil em: http://crabastosbrasil.blogspot.com/2011/04/sobre-realengo-e-o-brasil.html